*Anderson dos Santos
Domingo, 7h00 da manhã e muito frio, mesmo
assim, decido fechar meus treinos da semana no Parque Julio Fracalanza, na Vila
Augusta, em Guarulhos.
Com um circuito bem pequeno e trajeto bastante
irregular, o parque é meu "Golias" particular para treinos de 10 km
(volta curtinha com subida e descida, sem descanso para os aventureiros).
Alonguei, pedi força e proteção aos deuses da
corrida e fui. Já na primeira volta, eu o avistei entre as árvores, um gigante
grisalho de corpo anatomicamente construído para corridas velozes...um
verdadeiro monstro!
Ele aquecia totalmente concentrado e seu olhar
gelado rivalizava com o frio matinal. Passei por ele desejando ter olhos nas
costas, afinal, camaradagem entre corredores à parte, todo mundo sabe que a
elite pede passagem.
Então, o monstro veio e passou por mim
deixando para trás a nítida sensação que meu mundo girava em câmera lenta. Ele
se movia de forma sincronizada, como se tudo fosse feito justamente para
projetar velocidade (um Velociraptor caçando pode te dar uma vaga ideia do que
vi).
A cada ultrapassagem fui ficando com cara de
Brasil X Alemanha sabe? Cara, não deveria ter vindo aqui, não estou
pronto...não mereço estar aqui!
Mas, eu já estava ali certo? Pronto ou não, eu
faço 10 km e, por último, o parque é público, então posso correr aqui quando
quiser.
Com o psicológico recuperado, fui em frente e
lá pelo sétimo quilometro percebi que o gigante veloz não tinha pedido
passagem.
Fechei a volta do circuito e dei de cara com
ele parado, olhando atentamente para o relógio.
Na volta seguinte, vi que estava alongando e pensei comigo...ufa, já
posso terminar meu treino sem pressão.
Então, algo realmente mágico (pra mim, claro)
aconteceu. No fim de meu oitavo quilômetro, enquanto encarava mais uma vez a subida do
pequeno circuito do Fracalanza, percebi que o gigante estava sentado
descansando com os olhos fixos em mim.
Mantive o ritmo e, ao me aproximar, notei um
sorrisinho de canto de boca e um breve aceno positivo de cabeça.
Ahhhh, aquilo foi demais. Cara, ainda bem que
vim aqui, eu mereço estar aqui..eu estou pronto.
Outra volta finalizada e pude vê-lo deixando o
parque.
Estava entrando no meu quilômetro de número nove quando ele partiu.
Corri o restinho do meu treino dominado por um
pensamento incrivelmente feliz.
"Uau, o monstro do parque....sou
eu!"| Monstro avistado nas imediações do Parque Julio Fracalanza |
* Anderson dos Santos, 35 anos, é jornalista da Oxigênio Agência de Comunicação e fã incondicional de Manu, Fernanda, cinema e corrida. Vive em Guarulhos e treina sempre que pode, onde quer que esteja. É preciso dizer também que não abre mão de uma cervejinha bem gelada em ótima companhia. Afinal, nem só de corrida vive o homem, não é mesmo?