quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Reflexões de rua

Diferentes estilos, passadas longas, curtas, tênis coloridos, outros mais sóbrios, expressões de concentração, cansaço, air guitars...  Acho que seria mais fácil listar o que não se vê quando se está correndo pelas ruas de São Paulo. Ultimamente, contudo, algo tem chamado muito a minha atenção.

Desde que retomei a rotina de treinos, tenho saído de casa por volta das 7 horas e, neste horário, ao passo em que as filas de carros ganham corpo, as expressões dos motoristas perdem em brilho e cordialidade.

A disputa por alguns metros é atroz. Faixas de pedestres são invadidas, cruzamentos são fechados, buzinas operam com toda a capacidade... É como se cada um tivesse a sua própria Cúpula do Trovão... Dentro de seus veículos, motoristas não enxergam outros carros, bicicletas e nem mesmo outras pessoas... Enxergam obstáculos entre eles e o seu destino...

Como o Sr. Motorista se vê

Como o Sr. Motorista mostra seu domínio sobre essa terra de ninguém chamada faixa de pedestres
Mas o que realmente me impressiona é que, quando não estão brigando, estas pessoas encaram o mundo exterior com o olhar perdido, como se imaginassem o que estariam fazendo se estivessem fora de seus automóveis... A expressão que me vem à cabeça mais facilmente para justificar tamanho martírio é a famosa "ossos do ofício", mas... sei lá... será que isso é realmente necessário?

Hoje em dia, trabalhamos muito, mirando a qualidade de vida no futuro... Mas depois de tanto desgaste, você terá vida suficiente para que ela seja de qualidade?

Importante! Não estou sugerindo que as pessoas larguem seus empregos e abandonem seus automóveis (mesmo imaginando que isso daria uma boa aliviada nos ares da cidade). Acho apenas que, quando alguém sofre desta forma já nas primeiras horas do dia, a pergunta óbvia a se fazer seria: vale a pena?

Com o atropelamento ocorrido na USP no último sábado, mesmo em uma situação totalmente diferente, envolvendo um motorista embriagado em uma área de tráfego restrito, pensar sobre a violência no trânsito é algo que, imagino, todo corredor fez pelo menos uma vez... Mas e quanto aos motoristas? Será que existe uma reflexão sobre seu papel para a redução de toda essa agressividade sobre rodas? Hoje em dia, tenho a impressão de que ninguém cede passagem, a não ser que haja uma sirene envolvida. Da mesma forma, não vejo ninguém respeitando a preferência do pedestre em áreas de travessia sem semáforo....

Claro que, para solucionar todos os problemas no trânsito, uma discussão muito maior se faz necessária, mas acho que se cada motorista trocasse o volante pelo tênis de corrida, pelo menos uma vez, talvez pudesse perceber com um pouco mais de clareza a loucura de que estou falando...

domingo, 17 de agosto de 2014

Sobre o atropelamento

A notícia sobre o atropelamento ocorrido na USP, na manhã deste sábado deixou os frequentadores do Campus e, principalmente a comunidade de corredores extremamente assustados.

Para muitos essa já era uma tragédia anunciada, mas para aqueles que, como nós, são otimistas por natureza, a notícia teve o peso da ilusão perdida... 

Esta demonstração de desrespeito à vida humana é o que nos arranca a esperança de viver em harmonia e de acreditar no bem... A morte do sr. Teno e as lesões ocasionadas aos outros três corredores atingem a todos nós, por isso, temos a obrigação de lutar por justiça. 

Às famílias, as mais ternas condolências. Espero que possam encontrar conforto nesse momento de tanta tristeza.


Equipe Pace Coletivo

segunda-feira, 21 de julho de 2014

O Monstro do Parque

*Anderson dos Santos
Domingo, 7h00 da manhã e muito frio, mesmo assim, decido fechar meus treinos da semana no Parque Julio Fracalanza, na Vila Augusta, em Guarulhos.
Com um circuito bem pequeno e trajeto bastante irregular, o parque é meu "Golias" particular para treinos de 10 km (volta curtinha com subida e descida, sem descanso para os aventureiros).
Alonguei, pedi força e proteção aos deuses da corrida e fui. Já na primeira volta, eu o avistei entre as árvores, um gigante grisalho de corpo anatomicamente construído para corridas velozes...um verdadeiro monstro!
Ele aquecia totalmente concentrado e seu olhar gelado rivalizava com o frio matinal. Passei por ele desejando ter olhos nas costas, afinal, camaradagem entre corredores à parte, todo mundo sabe que a elite pede passagem.
Então, o monstro veio e passou por mim deixando para trás a nítida sensação que meu mundo girava em câmera lenta. Ele se movia de forma sincronizada, como se tudo fosse feito justamente para projetar velocidade (um Velociraptor caçando pode te dar uma vaga ideia do que vi).
A cada ultrapassagem fui ficando com cara de Brasil X Alemanha sabe? Cara, não deveria ter vindo aqui, não estou pronto...não mereço estar aqui!
Mas, eu já estava ali certo? Pronto ou não, eu faço 10 km e, por último, o parque é público, então posso correr aqui quando quiser.
Com o psicológico recuperado, fui em frente e lá pelo sétimo quilometro percebi que o gigante veloz não tinha pedido passagem.
Fechei a volta do circuito e dei de cara com ele parado, olhando atentamente para o relógio.  Na volta seguinte, vi que estava alongando e pensei comigo...ufa, já posso terminar meu treino sem pressão.
Então, algo realmente mágico (pra mim, claro) aconteceu. No fim de meu oitavo quilômetro, enquanto encarava mais uma vez a subida do pequeno circuito do Fracalanza, percebi que o gigante estava sentado descansando com os olhos fixos em mim.
Mantive o ritmo e, ao me aproximar, notei um sorrisinho de canto de boca e um breve aceno positivo de cabeça.
Ahhhh, aquilo foi demais. Cara, ainda bem que vim aqui, eu mereço estar aqui..eu estou pronto.
Outra volta finalizada e pude vê-lo deixando o parque.
Estava entrando no meu quilômetro de número nove quando ele partiu.
Corri o restinho do meu treino dominado por um pensamento incrivelmente feliz.
"Uau, o monstro do parque....sou eu!"

Monstro avistado nas imediações do Parque Julio Fracalanza

* Anderson dos Santos, 35 anos, é jornalista da Oxigênio Agência de Comunicação e fã incondicional de Manu, Fernanda, cinema e corrida. Vive em Guarulhos e treina sempre que pode, onde quer que esteja. É preciso dizer também que não abre mão de uma cervejinha bem gelada em ótima companhia. Afinal, nem só de corrida vive o homem, não é mesmo?

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Power songs – Bombay Bicycle Club – Evening/Morning

Confesso...

Escolher apenas um power song é uma tarefa dificílima.

Vinha adiando este post já há alguns dias, pois não conseguia escolher...

Entre um quilômetro e outro, ouvia uma faixa e afirmava convicto “É essa!”... 

Só que ai, vinha o malandro do shuffle e me surpreendia com algo ainda melhor...

Hoje, já na reta final do treino, enquanto olhava fixamente para o semáforo de pedestres, torcendo para que ele fechasse e me desse uns momentos de descanso, a música abaixo surgiu...

Bombay Bicycle Club já é uma banda de que eu gosto muito, mas esta música funciona pra mim como uma vida extra...  

No final das contas... Ainda bem que o sinal permaneceu verde pra mim!



segunda-feira, 14 de julho de 2014

Coração + força = corrida

Anderson dos Santos

Nossos leitores mais nerds (éééééé... nerd também corre) devem se lembrar que, em determinada época, o personagem de quadrinhos Flash, o homem mais rápido do Mundo, valia-se de uma fórmula geométrica para correr – ele a recitava e pronto, se transformava em um relâmpago vivo.


Bom, gosto de pensar que também tenho uma fórmula que me faz correr: coração + força = corrida.

Beleza, são duas palavras fortes, mas daí te fazer correr?

Entendo a desconfiança, mas deixe-me contextualizar, caro leitor.

Pra começar, estou muito longe de ser um corredor (jamais me chamaria de atleta) regrado e certinho. Também quero dizer que a primeira década dos anos 2000 seguiram sem qualquer traço de atividade física (jornalista boêmio não conta idas ao bar como exercício). Então, somente algo realmente poderoso poderia mudar meu adorável universo inerte, certo?

Foi exatamente o que aconteceu quando ouvi a frase "estamos grávidos".

Cara, fiquei tão feliz e, ao mesmo tempo, tão preocupado que, por amor a Manu, meu biscoitinho, decidi mudar.

Optei pela corrida, por ser uma atividade simples (sabe de nada, inocente!!!) e, logo ao começar, me apaixonei pelo esporte e por sua acolhida amorosa. Mesmo iniciantes, como eu, sabem que não interessa se jovem, rápido ou profissional, a corrida recebe a todos de braços abertos e eu sinto isso na pele o tempo todo, com gente me dando força, dicas, convidando para provas e compartilhando seus sons preferidos só para alegrar meu treino.

Logo, a única maneira que encontrei para retribuir todo esse amor foi demonstrar força sempre. E não se trata de quebrar recordes ou ir mais longe. Pra mim, quer dizer ter força para vencer a preguiça e levantar quando minhas meninas ainda estão dormindo, quer dizer lembrar o bem que a corrida me faz e ficar animado para treinar onde e quando puder. Acima de tudo, ter força quer dizer agradecer por todo e qualquer dia de treino (não tem jeito, sempre cedo à cobrança quando vejo meus resultados no aplicativo, mesmo sabendo que deveria apenas ficar feliz por ter feito).

Pode parecer bobagem e autoajuda barata, mas não... Ninguém pode negar os resultados de minha fórmula: já são dois anos ininterruptos de corrida, algumas provas e, hoje, faço uma média de três treinos de 10 km por semana (no começo eram treinos de 15 minutos e dores musculares incríveis).

E o mais bacana é que continuo recebendo apoio para seguir em frente, especialmente de um dos fundadores deste blog.

Magro, muito obrigado por todo incentivo, inclusive este, para escrever e compartilhar tudo de bom que a corrida nos traz.

Coração + força sempre e bora correr! 

terça-feira, 8 de julho de 2014

Power songs - The Chemical Brothers 93-03

O álbum inteiro é incrível... Sempre me imagino entrando num túnel, com aquela paisagem cinza, salpicada de grafite... Parece triste, mas sempre que corro me vejo numa cidade escura, como num comercial incrível de tênis :)

Não sei explicar, mas esse tipo de música me deixa meio robotizada/focada ... Vou seguindo um ritmo e me transformo numa pessoa poderosa, costas eretas e tal.

Leave Home

sábado, 5 de julho de 2014

Checklist

- Disposição? Confere...

- Treinamento de acordo com a planilha? Confere...

- Inscrição? ... Veja bem...

Não sei se é praxe, mas imagino que não sou o único a passar por algo assim...

Lá naquela Terra de Ninguém, também conhecida como ‘Meus Documentos’, ao lado da adorada e orgulhosamente preenchida planilha de treinos, reside sua prima distante e mais velha chamada contas do mês.

Em um esforço que facilmente me qualificaria para o Cirque Du Soleil, tento equilibrar a segunda para que possa bancar os caprichos da primeira. Ou seja, inscrições para as provas, entre outras coisas.

Acontece que, por um capricho do destino e apesar de toda a destreza acumulada em anos de prática, acabei errando a mão...

A etapa São Paulo da Asics GoldenFour entrou para minha to-do list ainda no ano passado, em um incidente que descreverei aqui em algum momento. Circulei o dia 3 de agosto no calendário, resgatei mentalmente o percurso de outras provas disputadas na região do Jockey Clube, fiz as pazes com a planilha e comecei a treinar...

Era isso... Essa seria minha segunda meia maratona do ano... Na terça-feira, 1º de julho de 2014, quando já vencia os últimos quilômetros da av. Sumaré, pensei: Contas pagas, tudo encaminhado, acho que já posso me inscrever!

Voltei para casa e decidi que aquela seria minha primeira tarefa, apesar de Camila votar em banho.

Acessei o site, olhei o kit com cautela, avaliei o percurso novamente e comecei a avançar pelas páginas da Mysports, onde as inscrições são realizadas. Em poucos cliques me deparei com a opção ‘Escolha a Etapa’. Ao clicar em ‘São Paulo- 03/08’, contudo, um pop-up com a frase “Inscrições encerradas” saltou em minha direção. De imediato as palavras foram entendidas por meu cérebro como “Cara, deu um probleminha aqui... Mas não é nada com você, tá? Sei que você tá esperando essa prova há algum tempo e que está se preparando... Por que você não preenche o formulário de novo? Você vai ver que foi apenas um engano”.

Não era...

Discursei contra a injustiça, falei sobre a brincadeira de mau gosto dos organizadores ao colocarem a mensagem no final do processo de inscrição, quando poderiam fazê-lo logo de cara. Nada disso resolveu...

Desencanar do treinamento e de todo o trabalho? Correr na pipoca? Continuar reclamando?

Todas as opções me pareciam ótimas e terríveis ao mesmo tempo...

Por sugestão de Camila decidi pensar melhor sobre isso depois do banho...

Mais calmo, decidi que utilizaria a grana para me inscrever em outra prova (acabei escolhendo os 16k da segunda etapa do Circuito Athenas, prova em que Camila correrá o percurso de 5k), mas que manteria o dia 3 de agosto como meta para minha segunda meia maratona do ano.

Não terei chip, número de peito, postos de hidratação e nem os milhares de corredores por perto. Mas se nesse dia, por acaso, você decidir passar pela Sumaré logo pela manhã, posso garantir que verá um sujeito bastante determinado...

Se parar na padaria ou em algum outro ponto da via, verá o mesmo cara passando muitas vezes...

Bom... Agora... Onde eu estava mesmo?

Ah! Lembrei...

Perseverança? Confere...

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Por falar em corrida...

Você já ouviu a expressão “put yourself in his/her shoes”? A frase, que traduzida ao pé da letra seria algo como se colocar nos sapatos de outra pessoa, é utilizada para indicar a alguém que ele ou ela deveria se imaginar no lugar de outra pessoa.  Ao ler o “Do que eu falo quando falo de corrida”, do japonês Haruki Murakami, a frase me veio à cabeça diversas vezes.
Não me entenda mal. Não tenho qualquer pretensão de me colocar no mesmo patamar de Murakami, nem com relação a sua premiada obra literária e nem tão pouco com aos quilômetros percorridos em mais de três décadas de corrida. Mas confesso que foi inevitável me sentir compreendido ao ler que alguém tão experimentado traduz com precisão sensações como dor, preguiça ou mesmo o infundado sentimento de derrota quando algo não sai exatamente como se planeja.
Pois bem... Ao conhecer um pouco da trajetória de Murakami, que aos 33 anos, decidiu tornar-se escritor e, para manter a forma, começou a correr, tentei calçar seus sapatos (ou melhor... seus gastos tênis de corrida).
A sensação que tive foi a de que, mesmo percorrendo distâncias diferentes (estou iniciando minha saga pelas meias maratonas), sabia exatamente do que ele falava ao descrever cãibras paralisantes no meio de uma prova, pensamentos aleatórios ou mesmo pequenos prazeres durante longas (e quase sempre solitárias) horas de treinamento.
Situados na preparação e nas provas disputadas entre o verão de 2005 e o outono de 2006, mas relembrando momentos cruciais, como o percurso de Atenas à cidade de Maratona, realizado por ele em 1983, os ensaios que compõem o livro revelam um romancista, um corredor e um homem descobrindo um ao outro, enquanto dividem uma mesma vida.

No final das contas, respondendo a indagação proposta no título do livro, acho que falamos de nós mesmos quando falamos de corrida.

Haruki Murakami, 1983

domingo, 22 de junho de 2014

No Parque do Ibirapuera tem gente...

Carol Penarotti


Ahhhh, o Parque do Ibirapuera!

Pra mim, o segundo melhor lugar para começar meus dias (o primeiro, sem dúvida, é a praia).

Se pudesse, minha saúde e eu iríamos ao parque todas as manhãs.

Mistureba de gente, cores, cheiros e sons.

Tem gente jovem, gente idosa, perfume bom e perfume bem doce...

Gente com roupa de marca, assim como pessoas usando pijamas...

Gente correndo porque faz bem para a saúde, gente correndo porque tá na moda, mas alguns apenas porque amam...

Gente feliz e gente com cara de dor.

Também tem gente andando de patins... alguns até dançam.

Tem cachorros lindos, crianças atravessando o caminho dos corredores a bordo de suas coloridas minibikes enquanto chamam pelas mães.

Tem "locais" e tem gringos.


Tênis e blusas de todas as cores.

Gente que veio de carro, de bike ou mesmo aqueles sortudos que só precisaram abrir o portão de casa ou do prédio.


Me sinto parte desse parque e o corpo agradece cada passo ou respirada nesse lugar.

Não da pra fazer isso todos os dias, mas deu pra fazer hoje.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Um bom treino

– Mas você não tem preguiça?

Olha... É até difícil dizer quantas vezes respondi a esta pergunta. Sempre que o tema da conversa vira para a rotina de treinamentos, tah-dá... Surge a questão...

A resposta: Claro que sim! Às vezes acho que minha preguiça é tão grande que comeu a preguiça de outras pessoas e se tornou algo como uma Preguiça-Megazord!

Volta aqui!
Hoje, por exemplo...

Lá estava eu... Com shorts, camiseta, tênis, fones, mas ainda sentado no sofá, olhando para o vazio, enquanto tomava os últimos goles de café.

Naquele momento, pensava que, se o universo mandasse algum sinal, qualquer que fosse, eu alegremente atenderia o canto da sereia que vinha da minha cama quentinha e mandaria o treino às favas...

Dou-lhe uma...

Dou-lhe duas...

É... Imaginei que talvez o universo ainda estivesse dormindo... Peguei as chaves, respirei fundo e saí.

Assim que alcancei a rua, fui açoitado por um vento frio, acompanhado de uma garoa fina e persistente...

- É sério, universo?

Não tinha mais volta... Bora treinar.

Cheguei à Avenida Sumaré, onde corro todos os dias, e iniciei os alongamentos de praxe (pouca gente sabe, mas durante este processo, além de mentalizar o objetivo do treino, faço algumas orações. Correr em São Paulo, sobretudo em vias movimentadas, é uma aventura, e toda a proteção é sempre bem-vinda)...

Nesse momento, percebi que minha preguiça tinha ganhado dentes... Ou seja... Agora, além de tudo, eu estava um pouco irritado. Eram seis horas da manhã e os 16° apresentados pelo termômetro de rua eram apenas uma ilusão... A garoa fazia com que a sensação térmica fosse algo como -38,7° e até alongar estava sendo dolorido...

Respirei fundo... Puto...

Respirei novamente... Puto...

Respirei uma terceira vez... Um pouco menos, mas ainda puto...

Percebi que precisava mudar a vibração... O dia estava apenas começando e eu estava prestes a fazer algo de que gosto realmente: correr...

Me dirigi à faixa de pedestres, para alcançar a ciclovia localizada no canteiro central da avenida. Continuava pensando em como poderia deixar a bad para trás.

Como é feriado e o número de carros na rua pela manhã é significativamente menor, aumentei o volume nos fones e passei a encarar o semáforo de pedestres, como se o verde fosse o estopim para a mudança de humor...

Não foi necessário...

Uma senhora que também pretendia atravessar, parou ao meu lado e disse algo...

– Desculpe, senhora.... Respondi, tirando os fones.

– Você não está com frio, meu filho? Disse, sorrindo...

Devolvi o sorriso e disse que durante a corrida ficaria tudo bem...

Pronto... Era daquilo que eu precisava...

Verde...

Me despedi da senhorinha e parti para a corrida. Sabia exatamente o que deveria fazer. Distribuiria sorrisos e bons-dias a todos os corredores que encontrasse pela frente... Isso, sem dúvida, faria bem para mim e para eles...

Avistei o primeiro beneficiado... Acertei o passo, pois sabia que se estivesse em um ritmo alto, em vez de um cumprimento daria apenas uma arfada na cara do sujeito...

– BOM DIA!

O rapaz me olhou com um misto de surpresa e espanto e, mesmo sem querer, me fez lembrar algo muito importante... Se estiver ouvindo música em um volume muito alto, involuntariamente você pode berrar com as pessoas e isso... Bom... não é muito legal...

Me recompus, baixei o volume e comecei a me preparar para os próximos...

Foi uma experiência divertida, pois, apesar de sempre cumprimentar corredores habituais, aquela era a primeira vez que eu fazia aquilo de forma consciente, planejada...

Quatro dos quatro corredores em condições respiratórias para responder, me devolveram o cumprimento. Três deles fizeram questão de sorrir novamente na segunda volta. Um me olhou ressabiado (talvez com medo que eu berrasse novamente)...

Foi uma quantidade muito menor do que esperava... Me dei conta, de repente, que, como é feriado, provavelmente os corredores teriam aproveitado para dormir um pouco mais e esperar que a temperatura subisse um ou dois graus.

Terminei o treino feliz da vida. O mau humor simplesmente não conseguiu manter o pace e o frio... Bom... esse era até um refresco naquele finzinho...

Imaginei a preguiça derrotada, voltando para sua caverna (Sim...Para mim ela vive em uma caverna situada embaixo da minha cama) e me senti feliz por, talvez, ter ajudado outras pessoas a vencerem suas respectivas preguiças dentadas...

Isso é o que eu chamo de um bom treino.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Challenge Accepted!

Tudo começou há, pelo menos, uns sete anos... Saía de casa enquanto ainda estava escuro, atravessava a cidade e chegava à USP ainda cedo para correr, antes de seguir para o trabalho.

Não posso dizer que foi fácil, mas em um pouco mais de um mês consegui correr meus primeiros 25 minutos sem pausa. Fiz disso uma meta e uma rotina...

Independentemente da distância, completava meus 25 minutos, caminhava por mais 5 e emendava uns 10 num trote (quase) confortável... Cara, como aquilo me deixava feliz... Pena que durou apenas uns quatro meses...

Algum tempo depois (não sei dizer quanto) comecei de novo... Diferentemente do que pensei aquilo era como começar do zero, com as mesmas dificuldades que eu já havia enfrentado e, por isso, a empolgação vinha, mas logo ia embora de novo...

Isso aconteceu uma porção de vezes, até que...

Em 2012, depois de ficar na torcida durante a primeira prova de rua de que meu marido participou, decidi começar de novo.

Acompanhada por duas amigas, passei a correr nas ruas próximas ao trabalho, logo depois do expediente. Depois de um tempo, transferimos os treinos para o Parque do Povo (o parque que eu gosto de chamar de meu) e foi ali que comecei a me preparar para minha primeira prova.

A corrida era, sem dúvida, um incentivo para continuar firme no treino, mas nem sei dizer quantas vezes fiquei em dúvida... Sei lá... Ficava pensando como iria ser, como iria me sair... Enfim...

As respostas vieram na primeira etapa do Circuito Athenas de SP daquele ano.

Fiz 5 km em 37 minutos e alguns segundos. Pra mim, aquilo foi incrível. Meus primeiros cinco quilômetros, correndo no meu ritmo, em uma Marginal Pinheiros tomada por outros corredores... Estava feliz da vida...

Me permiti chorar quando vi os atletas de elite avançando para completar a prova, enquanto eu ainda mirava o meu segundo quilômetro... Chorei de novo ao cruzar a linha de chegada... Aquilo tudo... Toda aquela energia... Toda aquela vibração... Era emocionante demais...

Naquela mesma semana, imprimi o certificado com o meu tempo e afixei em um mural, como um troféu...

Continuei os treinamentos e me inscrevi em outras provas naquele mesmo ano. Cheguei a completar 5k em 35 minutos, mas para mim aquilo ainda não era o suficiente...

Só que...

Bom... Depois disso eu desisti.

Voltei, desisti, voltei, desisti, voltei de novo, desisti mais uma vez e... Bom... Assim tem sido minha vida até então.

Agora, com o blog do marido, o casamento da melhor amiga chegando, os 30 anos de idade pesando e a cartucheira crescendo, chegou a hora de estabelecer um desafio público:


Este desafio será dividido em três partes:

1 - Tenho exatos 30 dias pra entrar em um vestido de festa que, atualmente, está um pouco apertado. Por isso, além da rotina de treinamento, que retomei hoje (4k, sendo 2k correndo e 2k rastejando em 35 minutos), preciso me alimentar melhor e, até a data, ficar bem naquele vestido - como toda a madrinha deve ser. Estou com (momento humilhação pública necessária) 61 kg e... Bom... Vamos ver o que vai dar. Não quero estabelecer uma meta... Quero voltar a correr, parar de me entupir com besteiras e valorizar os benefícios deste esforço...

2 - Pretendo me inscrever numa prova de rua disputada nos meses de agosto ou setembro e terminar os 5 km em menos de 35 minutos. Esse foi meu melhor tempo e acho que buscar esta meta me forçaria a treinar com seriedade...

3 - Quero correr 10 km na última etapa do Circuito Athenas SP. Fiz esta distância duas vezes e, em ambas, quase morri... Foram câimbras, ânsia de vomito, caminhadas no meio do percurso e muita (muita mesmo) dor nos joelhos...

A cada etapa concluída, volto aqui para contar o que aconteceu. Boa sorte pra mim!

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Mudanças e vocação

Carol Penarotti*

Aos 13 anos, em meio a competições de atletismo (100m e revezamento) pela minha escola, fui convidada por um “olheiro” a treinar no grupo da cidade de Mirassol, onde morava desde os 7 anos. Na ocasião, minha mãe não achou que aquela era uma boa ideia, pois, além de minha pouca idade, os treinos aconteciam no campo do Mirassol Futebol Clube, ou seja, totalmente fora da rota diária de meus pais.

Uma pena! Quer dizer, confesso que não sofri com aquilo na época, mas de certa forma, este fato me trouxe uma questão que sempre me vem à cabeça: “O que seria de mim se eu tivesse levado uma vida de atleta?”

Sempre pratiquei esportes e posso dizer que me mantive ativa por toda a minha adolescência, mas...

Aos 18 anos me mudei para São Paulo. Com a mudança (que ocorreu de forma bem radical), de uma hora para outra me vi estudando, trabalhando e dormindo. Foram quase 10 anos assim... Sedentária... Tentei frequentar a academia diversas vezes, mas o ritmo da cidade me cansava e eu sempre acabava desistindo.

Foi assim até que, em fevereiro de 2013, durante uma conversa com meu noivo e um casal de amigos, tomei uma sacudida para a qual não posso dizer que estava totalmente preparada... Naquele bate-papo, me dei conta de que 2014, mais conhecido como o ano de meu casamento, seria também o ano em que eu completaria 30 anos...

É... Não foi qualquer sacudida... Foi o que podemos chamar de uma SENHORA Sacudida...

Ah! Vale lembrar também que, como pretendo me preparar para ser mãe em breve, já queria realizar algumas mudanças. Afinal, preciso cuidar de mim, para poder cuidar de outra pessoinha, né?  Foi assim que, além de cuidar melhor de meu corpo e de minha alimentação, com o incentivo dos amigos, comecei também a correr... Posso dizer que, sem dúvida, aquela foi uma conversa muito importante para mim...

Me matriculei na yoga e ganhei em respiração, concentração e equilíbrio. Um mês depois, quando comecei a correr para valer, já não sentia aquelas incômodas dores laterais, que vêm com a respiração errada.

Em quatro meses eu estava totalmente viciada. Queria/Precisava correr todos os dias. A sensação de completar meus primeiros 10k, de participar das provas de rua e sentir a energia boa vinda dos corredores... É até difícil descrever...

O corpo começou a mudar... Estava mais forte... Mais resistente...

Foi ai que... Bom...

Bem no meio desta empolgação, tive outra reviravolta... Troquei de emprego e larguei tudo de novo... O sedentarismo reinou soberano por outros cinco meses, enquanto eu me adaptava à nova rotina.

O casamento, que não tinha nada a ver com isso, veio se aproximando... Foi então que, durante a primeira prova de vestido (vou casar com o vestido que minha mãe usou em seu casamento), fui surpreendida com a costureira dizendo: “você está no limite”.

SUSTO... Eu NUNCA escutei algo parecido... NUNCA precisei me preocupar com isso... E NÃO, ela realmente NÃO estava brincando... Era hora de mudar mesmo!

Voltei para a academia e, claro, voltei a correr.

Fiz uma avaliação física e descobri que meu índice de gordura era bom (toma essa, costureira!) e isso, claro, serviu de estimulo. Se parada, estava bem de saúde, imagine se estivesse me dedicando a algum esporte? Já era meio caminho andado.

Então, tá.... Quem é que está no limite agora?
Retomei a rotina. Logo, baixei o Nike+Running e comecei uma (na maioria das vezes) saudável disputa com alguns amigos corredores. Acho que, no final das contas, o app acabou sendo mais um estímulo, pois outra característica importante sobre mim é que adoro ser desafiada e estar entre os primeiros.

Neste período, meu noivo iniciou um projeto internacional e precisaria ficar fora do país por, mais ou menos, dois meses. Fizemos, então, uma aposta sobre quem estaria melhor no casamento. Tiramos fotos e guardamos. Pronto, fui desafiada de novo...

Precisaria: a-) me casar usando o vestido de minha mãe, e b-) estar melhor que meu noivo, que nunca deixou de praticar esportes.

Decidi mudar minha rotina e alimentação. Passei a acordar às 5h00 todos os dias, para malhar antes do trabalho (é o horário em que tenho mais energia) e comecei a inserir alimentos que, até então, eram non gratos em meus pratos.

Quatro meses depois, o vestido precisou apenas de um pequeno ajuste... PRA MENOS (quem é que está no limite agora?).

Feliz da vida e, para entrar um pouquinho mais no clima do casório, fiz uma playlist com algumas das musicas que farão parte da festa. Descobri que Sidney Magal e Wando têm o poder de me fazerem correr sorrindo. Fico só imagino a pista e os convidados dançando estranhamente.

Pronto, está tudo ali, a emoção do grande dia, as musicas que me fazem viajar, o corpo mudando, a ansiedade e tensão longe de mim e a cabeça e o coração num ritmo bom, além de inúmeros desafios vencidos.

A próxima vitória será sobre o noivo, que em vez de dois, acabou ficando cinco meses fora (aposto que até engordou).

Bom, hoje falta pouco mais de um mês para o casório, mas antes de responder a uma das questões mais importantes de minha vida (a resposta é sim, viu Jorge?), acho que já tenho resposta para aquela pergunta que me acompanha há tanto tempo... Levando uma vida de atleta, assim como a que pretendo levar daqui para frente, o resultado só poderia ser saúde!

*Carol Penarotti, 30 anos, trabalha com Marketing de Luxo, vive e treina em São Paulo, mas ama mesmo praia e sol. Trocou o queridinho pão francês por tapioca com banana, mel e canela. Suco de limão, suco verde e gengibre também fazem parte do seu dia a dia. Não troca uma manhã de treino por uma manhã de preguiça e adora a sensação do corpo dolorido e da cabeça leve.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Algo diferente

Desde que comecei a correr, desenvolvi um superpoder: hoje, posso realizar qualquer atividade em meu apartamento de pouco mais de 30m², totalmente no escuro.

Isso porque, para não acordar minha esposa em um horário que poucos chamam de 'manhã', adotei o hábito de me vestir, alongar, preparar e tomar o café da manhã com pouca ou sem qualquer luz...

Claro que isso já fez com que eu corresse com meias de cores diferentes e algumas peças do avesso, mas sejamos francos... nesse horário, quem está na rua para notar?

Hoje, no entanto, as coisas foram um pouco diferentes...

Não que ela tenha decidido acordar cedo... Na verdade, esta parte ocorreu exatamente da mesma forma... Corri, voltei e, como faço sempre, fiquei olhando para ela ali... dormindo tranquilamente, como se eu nunca tivesse saído...

Logo que abriu os olhos, no entanto, em vez do tradicional 'bom dia'em meio a uma espreguiçada de fazer inveja, veio um 'feliz dia dos namorados'...

De repente, tudo ficou claro...

Ai está a razão da melhora nos meus tempos...

Corro cada vez mais depressa justamente para voltar e vê-la... Assim como faço nas provas em que ela me acompanha, procurando seu rosto ao cruzar a linha de chegada...

Sempre foi assim... Vou na direção dela e sinto, nesses momentos, que nada pode me parar...

Podem chamar de reflexão de Dia dos Namorados, ou algo que o valha... Eu chamo de amor. Simples assim...

Obs: Apesar de todo o esforço para não acordá-la e, confesso, de me sentir bastante habilidoso desvendando as sombras da madrugada, sempre ouço um 'boa corrida e cuidado, tá?', antes de fechar a porta... No final das contas, acho que ela também tem alguns superpoderes!

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Fazendo as pazes com a planilha

Dia de descanso. Eu estava mesmo precisando...

Quer dizer... Não que esteja exausto, mas, desde que comecei a preparação para a etapa São Paulo da GoldenFour, sinto que não tenho respeitado a planilha tanto quanto deveria. Deixei de fazer dois ou três treinos técnicos e mais um longão por conta de um resfriado e, como se não bastassem estas faltas, já carregava uma culpazinha por ter começado a planilha já com uma semana e meia de atraso...  

Não que eu seja bitola (apesar do que dizem alguns amigos maledicentes), mas já estava me sentindo mal com isso...

Esta é apenas minha segunda vez com planejamento para a corrida. A julgar pelo desempenho alcançado na primeira oportunidade, acredito realmente que a planilha pode ser uma ferramenta fundamental para quem busca novos desafios, quer melhorar tempo ou, pelo menos, quer esboçar um sorrisinho ao final da prova. Por isso, não pretendo fazer um planejamento meia boca...

Com o day off de hoje, além de me recuperar um pouquinho (e finalmente começar o blog), a proposta é estabelecer um marco. Ou seja, a partir daqui, já que o objetivo é correr, vou começar indo atrás do prejuízo!

Bora?