sexta-feira, 27 de junho de 2014

Por falar em corrida...

Você já ouviu a expressão “put yourself in his/her shoes”? A frase, que traduzida ao pé da letra seria algo como se colocar nos sapatos de outra pessoa, é utilizada para indicar a alguém que ele ou ela deveria se imaginar no lugar de outra pessoa.  Ao ler o “Do que eu falo quando falo de corrida”, do japonês Haruki Murakami, a frase me veio à cabeça diversas vezes.
Não me entenda mal. Não tenho qualquer pretensão de me colocar no mesmo patamar de Murakami, nem com relação a sua premiada obra literária e nem tão pouco com aos quilômetros percorridos em mais de três décadas de corrida. Mas confesso que foi inevitável me sentir compreendido ao ler que alguém tão experimentado traduz com precisão sensações como dor, preguiça ou mesmo o infundado sentimento de derrota quando algo não sai exatamente como se planeja.
Pois bem... Ao conhecer um pouco da trajetória de Murakami, que aos 33 anos, decidiu tornar-se escritor e, para manter a forma, começou a correr, tentei calçar seus sapatos (ou melhor... seus gastos tênis de corrida).
A sensação que tive foi a de que, mesmo percorrendo distâncias diferentes (estou iniciando minha saga pelas meias maratonas), sabia exatamente do que ele falava ao descrever cãibras paralisantes no meio de uma prova, pensamentos aleatórios ou mesmo pequenos prazeres durante longas (e quase sempre solitárias) horas de treinamento.
Situados na preparação e nas provas disputadas entre o verão de 2005 e o outono de 2006, mas relembrando momentos cruciais, como o percurso de Atenas à cidade de Maratona, realizado por ele em 1983, os ensaios que compõem o livro revelam um romancista, um corredor e um homem descobrindo um ao outro, enquanto dividem uma mesma vida.

No final das contas, respondendo a indagação proposta no título do livro, acho que falamos de nós mesmos quando falamos de corrida.

Haruki Murakami, 1983

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