quinta-feira, 19 de junho de 2014

Um bom treino

– Mas você não tem preguiça?

Olha... É até difícil dizer quantas vezes respondi a esta pergunta. Sempre que o tema da conversa vira para a rotina de treinamentos, tah-dá... Surge a questão...

A resposta: Claro que sim! Às vezes acho que minha preguiça é tão grande que comeu a preguiça de outras pessoas e se tornou algo como uma Preguiça-Megazord!

Volta aqui!
Hoje, por exemplo...

Lá estava eu... Com shorts, camiseta, tênis, fones, mas ainda sentado no sofá, olhando para o vazio, enquanto tomava os últimos goles de café.

Naquele momento, pensava que, se o universo mandasse algum sinal, qualquer que fosse, eu alegremente atenderia o canto da sereia que vinha da minha cama quentinha e mandaria o treino às favas...

Dou-lhe uma...

Dou-lhe duas...

É... Imaginei que talvez o universo ainda estivesse dormindo... Peguei as chaves, respirei fundo e saí.

Assim que alcancei a rua, fui açoitado por um vento frio, acompanhado de uma garoa fina e persistente...

- É sério, universo?

Não tinha mais volta... Bora treinar.

Cheguei à Avenida Sumaré, onde corro todos os dias, e iniciei os alongamentos de praxe (pouca gente sabe, mas durante este processo, além de mentalizar o objetivo do treino, faço algumas orações. Correr em São Paulo, sobretudo em vias movimentadas, é uma aventura, e toda a proteção é sempre bem-vinda)...

Nesse momento, percebi que minha preguiça tinha ganhado dentes... Ou seja... Agora, além de tudo, eu estava um pouco irritado. Eram seis horas da manhã e os 16° apresentados pelo termômetro de rua eram apenas uma ilusão... A garoa fazia com que a sensação térmica fosse algo como -38,7° e até alongar estava sendo dolorido...

Respirei fundo... Puto...

Respirei novamente... Puto...

Respirei uma terceira vez... Um pouco menos, mas ainda puto...

Percebi que precisava mudar a vibração... O dia estava apenas começando e eu estava prestes a fazer algo de que gosto realmente: correr...

Me dirigi à faixa de pedestres, para alcançar a ciclovia localizada no canteiro central da avenida. Continuava pensando em como poderia deixar a bad para trás.

Como é feriado e o número de carros na rua pela manhã é significativamente menor, aumentei o volume nos fones e passei a encarar o semáforo de pedestres, como se o verde fosse o estopim para a mudança de humor...

Não foi necessário...

Uma senhora que também pretendia atravessar, parou ao meu lado e disse algo...

– Desculpe, senhora.... Respondi, tirando os fones.

– Você não está com frio, meu filho? Disse, sorrindo...

Devolvi o sorriso e disse que durante a corrida ficaria tudo bem...

Pronto... Era daquilo que eu precisava...

Verde...

Me despedi da senhorinha e parti para a corrida. Sabia exatamente o que deveria fazer. Distribuiria sorrisos e bons-dias a todos os corredores que encontrasse pela frente... Isso, sem dúvida, faria bem para mim e para eles...

Avistei o primeiro beneficiado... Acertei o passo, pois sabia que se estivesse em um ritmo alto, em vez de um cumprimento daria apenas uma arfada na cara do sujeito...

– BOM DIA!

O rapaz me olhou com um misto de surpresa e espanto e, mesmo sem querer, me fez lembrar algo muito importante... Se estiver ouvindo música em um volume muito alto, involuntariamente você pode berrar com as pessoas e isso... Bom... não é muito legal...

Me recompus, baixei o volume e comecei a me preparar para os próximos...

Foi uma experiência divertida, pois, apesar de sempre cumprimentar corredores habituais, aquela era a primeira vez que eu fazia aquilo de forma consciente, planejada...

Quatro dos quatro corredores em condições respiratórias para responder, me devolveram o cumprimento. Três deles fizeram questão de sorrir novamente na segunda volta. Um me olhou ressabiado (talvez com medo que eu berrasse novamente)...

Foi uma quantidade muito menor do que esperava... Me dei conta, de repente, que, como é feriado, provavelmente os corredores teriam aproveitado para dormir um pouco mais e esperar que a temperatura subisse um ou dois graus.

Terminei o treino feliz da vida. O mau humor simplesmente não conseguiu manter o pace e o frio... Bom... esse era até um refresco naquele finzinho...

Imaginei a preguiça derrotada, voltando para sua caverna (Sim...Para mim ela vive em uma caverna situada embaixo da minha cama) e me senti feliz por, talvez, ter ajudado outras pessoas a vencerem suas respectivas preguiças dentadas...

Isso é o que eu chamo de um bom treino.

4 comentários:

  1. Depois de ler seu texto, preciso compartilhar a minha experiência de hj, que foi mto parecida com sua. Frio do kct…mas a minha preguiça durou, acho que, um pouco menos que a sua, pq quando cheguei no parque, vi um grupo de uns 3 senhores corredores, animados, felizes e bem agasalhados. Eles tinham de 70 a 80 anos e eu só pensava que se eles estavam ali, preguiça nenhuma podia me dominar. Passei meu percurso todo querendo parar cada velhinho que cruzava meu caminho, queria tirar uma foto e dizer que eles me animam, mas eu só pensei isso, achei que poderia assusta-los, ou até, atrapalhar a rotina desses corredores matinais. Foi fantástico.

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    1. Que demais, Cá! Acho que podemos dizer que tanto a minha senhorinha qto os seus senhorezinhos salvaram o dia!

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  2. já to vendo vcs dois velhinhos incentivando a meninada em 2040 :)

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